Eterno Sonho e o racismo em Cruz E Sousa
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Eterno Sonho, em Outros Sonetos, é um dos poucos poemas onde o racismo é visível claramente. Nas três primeiras estrofes a voz lírica declara sua paixão por uma mulher e conjectura sobre a incapacidade dela de compreender como a paixão eleva dolorosamente ao amante, ao passo que imagina o que ela poderia dizer: “É que tens essa cor e é que eu sou branca!”. O poeta negro imagina seu amor rejeitado pela mulher branca pelo cor da sua pele. No epigrafe, o poeta transforma os versos de Félix Arvers e gera novos sentidos. O poema Sonnet , de Mes Heures Perdues , é similar ao poema de Cruz e Sousa, excepto no final:

Sonnet

Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour éternel en un moment conçu :
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dû le taire,
Et celle qui l'a fait n'en a jamais rien su.
Hélas ! j'aurai passé près d'elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire.
Et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre,
N'osant rien demander et n'ayant rien reçu.
Pour elle, quoique Dieu l'ait faite douce et tendre,
Elle suit son chemin, distraite et sans entendre
Ce murmure d'amour élevé sur ses pas.
À l'austère devoir, pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle
" Quelle est donc cette femme ? " et ne comprendra pas.

O tema da mulher que não sabe que o homem a seu lado está namorado é parecido, contudo, o ultimo verso aparece no poema do brasileiro na seguinte forma:

Quelle est donc cette femme?
Je ne comprendrai pas.

Há duas diferenças importantes: primeiro, desapareceram as marcas do discurso direito da mulher que fala dos versos que escuta e, então, o discurso da mulher e o discurso da voz poética do poema francês são atribuídos, no poema de Cruz e Sousa, à voz poética. Segundo, se no soneto de Arvers ela não compreende que ele a ama, no de Cruz e Sousa, é ele quem não compreende. Por consequência, o sentido da citação é completamente diferente.

Em Sonnet , o tema é a ignorância dela e o ultimo terceto mostra-la; em Eterno Sonho, o poema deriva desde o tema da mulher que ignora o amor do homem namorado até a rejeição do homem pela raça . Eterno Sonho é o poema da mulher branca que sabe porquê rejeita ao homem negro, e a frase “ je ne comprendrai pas ” da voz poética é o signo da impossibilidade de compreender o racismo.

A sensualidade é carnalmente humana, mas também é luminosamente espiritual. O cor vermelho permite relacionar a corporalidade, o espírito e a embriaguez báquica. Também está associado com a sangue da vida, o vinho da embriaguez, e com o erotismo feminino. Como vimos ao ler Eterno Sonho, o racismo está presente na consciência do poeta que escreve sobre uma mulher branca que rejeita ao homem negro e que também é consciente do porquê da rejeição. O cambio nos versos de Arvers no epigrafe é sinal da impossibilidade da voz poética de compreender o racismo. É também a construção duma voz poética negra, não sempre visível.

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